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214 lutas de classes. Tanto em Florestan quanto em Gramsci, o “intelectual orgânico” não está separado do povo, da cultura, da história e da política das classes subalternas desejosas de construir uma nova civilização. Desejo esse que implica o enfrentamento dos desafios existentes advindos da complexa relação entre utopia e realidade, e que, segundo Toledo (1998, p. 68) deu sentido à vida e à obra de Florestan, pela sua recusa em “admitir a sociedade existente como modelo e ideal para a realização das possibilidades e (sempre renovadas) necessidades humanas” – os mesmos desafios, portanto, que se postam para os que insistem em “navegar contra a corrente” da hegemonia “neoliberal”. Para muitos de nós, de uma sociedade cada vez mais egoísta e hedonista, com base numa “ordem social competitiva” extremamente injusta, porém admitida como “natural” e até “desejável” – e na qual a necessária razão prática se torna absoluta em detrimento da imprescindível razão crítica (MARCUSE, 1999) –, os valores e os significados expressos pelo texto florestaniano, num primeiro momento, podem parecer nada mais do que deslocados, quiçá alienígenas. No entanto, sua radicalidade e seu efeito de desconforto mostram-se fundamentais para que tenhamos condições de fazer uma necessária crítica dos fatos e da informação que consumimos e, assim, combatermos o sistema de fabricação de notícias que engendra “o ilusionismo da cultura comercial de massas”407 (FERNANDES, 1995b: 167) – do qual a política se torna cada vez mais refém. Um exemplo dessa prática de “ilusionismo”, Florestan vai encontrar no “padrão de qualidade” jornalística do “maior partido político do país”: Os narradores e os jornalistas têm de obedecer a uma estandardização, no modo de falar, de tecer comentários, de evitar as contradições chocantes, de atrair interesse e curiosidade desideologizando a linguagem, de vestir-se, de tomar um tom de oráculo e impositivo ao focalizar o rotineiro pela superfície, de simular que atrás de cada relato existe uma permanente “descoberta jornalística” em processo, etc. Há uma alta qualidade invariável na comunicação com o ouvinte. Porém, penetra-se no mundo mental da plastificação cuidadosa e bem-servida – não na área do pensamento inquiridor ou criativo, que ajude alguém a evadir-se de si mesmo e planar no universo subjetivo da fantasia e dos confrontos ardentes. Tudo isso obriga a constatar-se que o padrão Globo de qualidade não rebaixa o jornalismo televisivo. Todavia, contém dentro de si, oculto, o veneno do conformismo, como produto acabado e como relação dos receptores com os processos mentais em que se vêem imersos pela linguagem408 (FERNANDES, 1990, p. 54-55). 407 408 “Cláudio Abramo e o jornalismo”. Folha de S. Paulo, 14 ago. 1988. “Rasgando a seda”. Folha de S. Paulo, 18 set. 1989.