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Capítulo 27
A amarga ironia de minha vida era que, dois anos depois que minha irmã, Carole Ann, morreu em uma
ala de oncologia pediátrica em Portland, Oregon, eu me tornei paciente da mesma ala. Eu conhecia
todas as enfermeiras, que balançavam a cabeça, recusando-se a acreditar.
— As duas meninas Moore? — elas sussurravam. — As duas?
Mas, se Deus, o destino ou o carma decidir que você vai ter câncer, cruze os dedos e torça para ser um
como o meu. O linfoma de Hodgkin não é incomum, o que significa que os médicos sabem muito
sobre ele e, a essa altura, sabem muito bem curar essa doença. Esse é o lado positivo, o copo meio
cheio.
— Ah, sim, o copo meio cheio... de merda — Robinson costumava dizer. Eu o conheci naquele lugar,
e, toda vez que ele falava um palavrão, eu meio que dava um soco no braço dele, porque eu não
gostava. Mas eu gostava dele, o que facilitou um pouco estar naquele lugar.
Não me entenda mal. Mesmo um câncer com grande probabilidade de cura não é fácil. Sim, as paredes
do hospital eram pintadas com cores bonitas, as enfermeiras vestiam uniformes com estampas do
Ursinho Pooh e algumas das crianças mais velhas fingiam que a ala era um colégio interno, completo,
com uniformes que consistiam em camisolas azuis finas, chinelos de pelúcia e carecas cobertas com
lenços coloridos. Mas estar lá e estar doente era um saco.
Até o dia em que conheci Robinson. Até o dia em que ele me encontrou.
Se a vida fosse um filme, nós teríamos aquilo que as pessoas chamam de meet cute [ 11 ]. Algo do
tipo: eu trombaria com Robinson enquanto carregava uma enorme pilha de revistas que pegara
emprestado da sala de espera. Todos aqueles semanários inúteis como Us, People e Life & Style se
espalhariam pelo chão. Eu faria uma piada sobre estudar para um teste de cultura pop e ele daria
risada enquanto me ajudava a recolher a bagunça. Quando as revistas estivessem de volta em meus
braços, perceberíamos que estávamos totalmente loucos um pelo outro, e a comicidade e o romance
dominariam a tela pelos próximos noventa minutos.
Na vida real foi assim: durante uma alucinação causada por narcóticos, resultante de uma reação ruim
à quimioterapia, eu olhava fixamente para a TV, convencida de que Barney, o dinossauro roxo, estava
falando diretamente comigo. Quando fracassei em decifrar sua mensagem, adormeci, acordando mais
tarde para encontrar um garoto lindo, de cabelos negros, sentado ao lado de minha cama. Eu sabia que
tinha morrido, porque, a não ser que tivesse sido transportada para o paraíso, não havia possibilidade
alguma de um carinha tão atraente estar sorrindo para mim.