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ordem. Em seguida, com a vida confortável e sentindo–se seguro a respeito da
continuidade de suas circunstâncias favoráveis, o ser humano passaria a dedicar–se
a suprir suas necessidades sociais de afeição, aceitação, pertença, convivência,
amizade e amor. O degrau seguinte seria das necessidades do ego e de auto–estima,
em que estariam em jogo questões como auto–aceita–ção, autoconfiança, prestígio,
admiração por terceiros, aprovação social e reconhecimento. Finalmente, viriam as
necessidades de auto–realiza–ção, a saber, o desenvolvimento do potencial criativo,
o empreendimento significativo, a concretização dos talentos e de potencialidades
para realizar algo de valor.
Essa percepção segue mais ou menos a ordem do Qoelet, o Eclesiastes, em seu
testemunho de peregrinação em busca do sentido da vida. Salomão percorreu as
trilhas do prazer, do trabalho, da estética e da beleza, do poder e da luxúria para
chegar à conclusão de que tudo na vida era "vaidade de vaidades", no hebraico
hebel hebelim, que "denota o que é visível ou identificável, mas imaterial,
transitório e inútil".6 Mas é exata–mente Salomão quem promove a "destruição
ruidosa de ídolos, das respostas fáceis às questões sobre o sentido da vida,
incluindo as respostas religiosas".7 O segredo do sentido da vida está na
experiência do cotidiano à luz da eternidade, pois a afirmação mais contundente do
Eclesiastes é que Deus "pôs no coração do homem o anseio pela eternidade"8 ou,
em outras palavras, a vida é aqui, com as coisas daqui, e ninguém pode realizar o
sentido da vida excluindo este mundo e esta dimensão da existência, mas não é aqui
seu ponto final e não são as coisas daqui as últimas. Na verdade, são as
penúltimas.
Maslow tinha certa razão. Mas esqueceu que "o coração do homem tem um vazio
do tamanho de Deus", como disse Fyodor Dostoyevsky. É fato que precisamos
sobreviver e ter sucesso, mas é mais verdadeiro ainda que ansiamos por significado
e respostas que nos conduzam à eternidade, a eternidade que cabe dentro do nosso
coração.
Meu amigo de quarto no seminário ensinou–me isto quando discutíamos Morte e
vida Severina, de João Cabral de Mello Neto: "As pessoas não têm medo de
morrer; elas, na verdade, têm medo de morrer sem saber por que viveram",
disse–me ele no escuro da madrugada desde a cama de cima do beliche que
dividíamos.
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