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V/02
- MARAVILHA - SC, 8 de agosto de 2015 - edição 341
Variedades
Fatores climáticos
Essa pergunta muitos fazem, mas poucos têm a resposta. O meteorologista Leandro Puchalski
destaca que o mês de julho abriu as portas para a influência do fenômeno El Niño
N
esta semana a equipe de
redação do Jornal O Líder buscou informações
junto aos órgãos competentes para tentar entender o
que ocasionou a enxurrada do dia
14 de julho, no que se refere aos
fatores climáticos.
Em entrevista exclusiva com o
meteorologista Leandro Puchalski, ele destacou que o mês de julho abriu as portas para a influência do fenômeno El Niño no clima
de 2015. O alto volume de chuva
registrado no mês passado já foi
uma das características.
Conforme explica Puchalski,
o El Niño não é um sistema meteorológico que sai de uma região
e vem para SC. “Esqueça frases
do tipo: El Niño avança para SC.
Um dos fatores que influenciam
o clima, não o tempo que é curto
prazo, é a interação da temperatura das águas do oceano e a atmosfera. A troca de energia entre eles
faz com que tenhamos estações
do ano típicas ou com anomalias,
mais ou menos rigorosas. A faixa
entre Austrália e a América do Sul
é uma das regiões do planeta mais
importantes para determinar o
clima do mundo inteiro. Quando
temos águas mais quentes do que
o normal nessa parte do Oceano
Pacífico e ventos, na região chamado de alísios, mais fracos, por
um período de três a seis meses
seguidos, temos o que chamamos
de El Niño”, afirma.
Ele aponta que o que ocorre
no oceano e na atmosfera de determinada região do planeta é que
é o El Niño, ou seja, ele não avança de um ponto para outro. “O que
ocorre é que as mudanças nessa
região, Austrália/América do Sul,
muda a circulação dos ventos na
atmosfera, que mudam o transporte de umidade pelo mundo
criando variações na distribuição
das chuvas e também das massas
de ar responsáveis pelo comportamento da temperatura. O fenômeno influencia diversas regiões do
mundo inteiro, mas cada região
de uma forma. Para nós, de Santa Catarina, a influência maior é
no comportamento da chuva que
aumenta de volume em relação ao
padrão”, esclarece.
Puchalski ressalta que é muito
importante destacar que estamos
falando de duas coisas diferentes,
mas interligadas. “Quando fala-
mos de El Niño, estamos falando de uma escala maior, seja no
tempo ou no espaço. O El Niño faz
com que, nos meses de influência,
tenhamos mais períodos com condições meteorológicas associadas à
chuva. No caso específico que ocorreu em julho temos explicação relacionada com a condição do tempo,
não do clima, que são coisas diferentes, condição da atmosfera específica daquele momento”.
O QUE MUDA EM ANOS DE EL NIÑO?
Conforme o post no blog do
Puchalski, de segunda-feira (3), ele
aponta que é importante ter em
mente que quando falamos em El
Niño, estamos falando de uma escala
macro, não só em termos de região
de influência. “Quando há um El
Niño aumenta a frequência de um
padrão da atmosfera que é favorável
a eventos extremos de chuva que du-
ram certa quantidade de dias”.
Em ano de influência do fenômeno temos alguns momentos em
que o padrão da atmosfera abaixo
ocorre no Estado:
“Vejam que o El Niño ajuda
a intensificar um vento em altitude que traz umidade do Norte
do Brasil/Oeste da América do Sul
diretamente para SC. Nesses dias
toda e qualquer frente fria, sistema
de chuva, que avança do Sul da
América do Sul é intensificada na
nossa região e fica praticamente
parada, trazendo não só nuvens
mais carregadas, volumes de chuva, quanto aumentando a quantidade de dias com a chuva presente. Foi o que ocorreu no mês de
julho de 2015. Essa é a explicação
do ocorrido. No entanto, onde entra o El Niño na conversa? O que
ocorre é que em anos de El Niño,
esse comportamento da atmosfera
é mais frequente ao longo dos meses e também atua por um período
de dias maiores. Essa é a relação
da condição do fato em si como o
evento El Niño”, assegura.
O que diz
a Defesa Civil
Em Maravilha, segundo informações do coordenador municipal da Defesa Civil, Valdecir
Sartori, o evento que ocorreu em
Maravilha foi registrado como
enxurrada. “Temos que fazer um
registro no sistema do governo
federal e lá tem todas essas orientações. Então optamos por cadastrar como enxurrada, que era o
que enquadrava o acontecido no
município”, afirma.
Conforme o coordenador regional da Defesa Civil, Rogério
Golin, existia a previsão de chuvas consideradas, mas não tinham
como afirmar que seria num curto
espaço de tempo e numa quantidade tão intensa. “Existia a previsão de ser mais de 100 milímetros,
durante o dia e não em poucas
horas, então acabou nos surpreendendo em relação a isso. De forma
antecipada, o que temos são previsões emitidas pela Epagri/Ciran.
Essas previsões se confirmaram
com relação à quantidade de chuva, mas nós não tínhamos a precisão de que essa chuva seria em tão
curto espaço de tempo. Por isso
consideramos como uma catástrofe. Se essa mesma quantidade
de chuva, ao invés de ser em seis
horas, ela fosse em 24h, nós teríamos alagamentos pontuais, como
temos nos demais dias que dá uma
pancada mais contínua de chuva,
mas não teríamos um problema
tão grande como tivemos”, diz.
Ele explica que a nuvem que
se formou na tarde do dia 13 de
julho, em forma de funil, quando
chega atingir o solo acontece um
tornado. “A nossa preocupação
enquanto Secretaria de Estado de
Defesa Civil era muito grande que
isso poderia acontecer. As condi-
ções atmosféricas estavam propícias a um tornado. Então tivemos a
felicidade dessa nuvem não tocar
o solo na nossa região, posteriormente ocorreu esse fenômeno em
Francisco Beltrão. Essas previsões
são em espaço de tempo curto,
não tem como precisar de um dia
para outro. Então as nuvens se formam e são deslocadas pela força
dos ventos, e conforme a combinação massa quente + massa fria,
elas acabam ocasionando essa
nuvem funil, que pode ocasionar
esse fenômeno denominado tornado”, aponta Golin.
O coordenador afirma que o
ocorrido não se caracteriza como
temporal. “Não houve temporal,
o que aconteceu foram chuvas
intensas, não caracterizou em
momento algum nenhum tipo de
vendaval ou qualquer coisa semelhante, porque o que sofremos foi
em decorrência da chuva. Choveu
muito, em um espaço de tempo
curto, aumentou o nível do leito
do rio e transbordou. Então isso
é típico de uma enxurrada, muita água em pouco tempo. O leito
do rio não suporta e acaba transbordando. Com a quantidade de
chuva, mesmo com o leito do rio
aprofundado, nós teríamos pro-
(Fonte: diario.com.
br/blogdopuchalski)
blemas igual, foi muita água. Essa
quantidade de água não tínhamos
registrado, então não temos registros históricos de que tenha chovido tanto em tão pouco tempo em
nosso município”, diz.
Ele complementa afirmando
que a nossa natureza está sendo
modificada e o que ocorreu não é
algo pontual em Maravilha. “Mas o
ciclo não gira em torno da nossa região, temos influência desde a Mata
Atlântica, nós temos muita influência de frentes que vêm do Paraguai,
da Argentina e Uruguai, então tudo
isso interfere. É uma combinação de
fatores que acaba ocasionado isso”.