Download TESE DE DOUTORAMENTO - DigitUMa
Transcript
As relações entre o sujeito e o seu meio consistem numa interação radical, de tal modo que a consciência não começa pelo conhecimento dos objetos nem pela atividade do sujeito, mas por um estado indiferenciado do qual derivam dois movimentos complementares: de incorporação das coisas ao sujeito e de acomodação às próprias coisas. O conhecimento constrói-se portanto a partir da interação do sujeito com o meio, a partir de estruturas, em que o funcionamento é hereditário e o conteúdo é emergente dessa interação. Por isso, este processo depende das estruturas cognitivas do sujeito e da sua relação com o objeto. «(…) pode-se dizer que o papel do sujeito se afirma, essencialmente na elaboração das formas, enquanto à experiência compete dotá-las de um conteúdo» (Piaget, 1974, p. 387). Esta «tendência para assimilar, deformar, se preciso, e forçar a estrutura e funcionamento da realidade exterior para que encaixe em seus próprios esquemas de interpretação anteriormente construídos» é, para Piaget, o primeiro movimento do sujeito, cujo conhecimento não é uma cópia da realidade mas decorre da imposição irredutível dos esquemas internos previamente construídos, e que funcionaram com sucesso na atividade adaptativa do indivíduo. Segue-se uma tendência para a acomodação, isto é, a necessidade de alterar os próprios esquemas de interpretação quando a realidade, de forma insistente, recusa a qualidade ou utilidade de tal conhecimento. Estes movimentos constituem o carácter construtivo dos modos de pensar, sentir e atuar dos sujeitos. «Os indivíduos constroem tanto seus conhecimentos e ideias sobre o mundo natural como seus próprios instrumentos e recursos do conhecimento» (Pérez Gómez, 2001, p. 210). Ao definir acomodação como o resultado das pressões exercidas pelo meio, Piaget (1974) assume que a adaptação é um equilíbrio entre a assimilação e a acomodação e que tal definição aplica-se também à própria inteligência. Com efeito, o estudo do aparecimento da inteligência no decurso do primeiro ano, desenvolvido pelo autor, pôs em evidência «que o funcionamento intelectual não procede nem por tateamento, nem por uma estruturação puramente endógena, mas por uma atividade estruturante que implica ao mesmo tempo em formas elaboradas pelo sujeito e num ajustamento contínuo dessas formas aos dados da experiência» (Piaget, 1976, p. 161). Por essa razão, o autor reconhece que «a inteligência é a adaptação por excelência, o equilíbrio entre a assimilação contínua das coisas à atividade própria e à acomodação desses esquemas assimiladores aos objetos em si mesmos» (p. 161). Por isso, não há dúvida que a vida mental também é acomodação 68