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Para Jacopo Sebastiani as noites serviam para dormir, excepto ao início
da noite de sexta-feira que serviam para cumprir as prerrogativas conjugais
com Norma, com quem era casado há mais tempo do que aquele que
conseguia lembrar. Era, por isso, uma imbecil anormalidade, segundo
palavras dele, ter de se levantar da cama por estarem a tocar à campainha
e a bater à porta, incansavelmente. Olhou o relógio da mesa-de-cabeceira e
esfregou os olhos para ver se eram mesmo quatro e vinte da madrugada.
Raios. Seguramente fora a sonolência que lhe refreara a irritação.
Norma ressonava virada para o outro lado. Era o bom que ela tinha. Se
um dia um cataclismo varresse o prédio, Deus o livrasse, ou quem quer que
fosse a entidade que geria essas preces, não teria de se preocupar em
salvá-la. Morreria tranquilamente, na paz do sono revigorante da eternidade.
A imbecil anormalidade apresentou-se na forma de um jovem,
aparentemente adolescente, que continuou a carregar na campainha mesmo
depois de Jacopo ter aberto a porta. Foi ele quem sacudiu a mão do rapaz
do botão. O miúdo transpirava e parecia que subira ao quarto andar pelas
escadas, por causa da forma como arfava. Jacopo reconheceu-o. Era um
dos lacaios da câmara pontifícia, um criado do Papa.
– Que queres? – perguntou com maus modos. – Não devias estar a
dormir ou a rezar ou…? – Lá o que fazes à noite…?
O rapaz não conseguiu articular uma palavra. Estava ainda a recuperar o
fôlego.
– Não digas nada – disse o outro, arreliado. – Para teu bem, espero que
tenha começado o Apocalipse segundo São João. – Lançou-lhe um olhar
ameaçador que não era difícil concretizar àquela hora. – Espera aqui. Venho
já.
E fechou a porta na cara do rapaz.
Vinte minutos depois, que fizeram o rapaz pensar várias vezes se havia
de arriscar tocar à campainha novamente ou não, saíram os dois para o ar
frio da Via Britannia e entraram numa viatura Fiat com matrícula SCV,
indicadora de pertença do Estado Cidade do Vaticano.
– Já nem se respeitam as segundas-feiras – resmungou Jacopo antes de
o carro arrancar.
O jovem ia corrigi-lo e dizer-lhe que, tecnicamente, já era terça mas
achou melhor permanecer calado.
Roma era uma cidade que dormia de noite, como Jacopo, sem grandes
alaridos. Os locais de diversão nocturna estavam muito bem definidos e