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Uma projeção com bolas coloridas que a silhueta do público pode segurar e arremessar para cima; luvas metálicas que tocadas acionam mutações em personagens de um conto; um grafite digital acionado por gestos e projetado no ambiente; uma sobreposição de pulos dos visitantes de uma exposição; um software que gera desenhos randômicos para design de roupas; uma luz que se acende quando duas mãos se tocam; um registro sonoro da cidade que gera imagens em movimento; a navegação em uma multimídia pelo contato da mão com a água; sons acionados pelo toque em pedaços de Bom Bril; uma música que se constrói a partir de uma câmera escaneando uma pintura. A produção artística recente denominada ‘tecnológica’, no contexto brasileiro, parece abarcar um grande matiz de estratégias e procedimentos, inseridos, porém, quase todos, em uma linha geral que toma ‘tecnologia’ basicamente como computadores ligados a processadores de input e output. Embora diversa nos meios e no conteúdo, a estrutura das sentenças se repete: um som que gera uma imagem; uma ação que faz girar um motor; um comando que produz desenhos; uma imagem que gera um som. Por um lado, a restrição da ideia de tecnologia a ‘tecnologia da informação + processadores externos ligados a sensores e atuadores’ elimina outras possibilidades de experimentação tecnológica – quantas outras tecnologias ficam fora desse escopo? Por outro, certo deslumbre com as tecnologias recém-descobertas (que, muitas vezes, de meio passam a ser fim) ofusca possibilidades mais promissoras de inserção social, cultural e política. _ elogio (Antes que se iniciem os mal-entendidos: escrevo aqui como crítico e ao mesmo tempo objeto da crítica, já que me insiro no grupo que vem atuando no campo. Se a crítica for severa, é autocrítica. Se for branda, o elogio é aos colegas. Assim nos aliviamos todos do papel temerário e controverso do ‘crítico externo’ que faz seus juízos finais, provocando ou o ódio ou a adoração dos ‘artistas’.) _ fogo O homem primitivo, esse ser mítico, tinha um primo chamado Delcir, o esteta. De fato, foi Delcir quem achou primeiro um galho seco em brasa depois de uma trovoada. Desde então, passavam os dias às voltas com pedaços de madeira, pedras e raios, na duvidosa empreitada de reproduzir fagulhas. Numa tarde fria de primavera, quando estava sozinho na floresta, Delcir realizou o milagre: atiçou fogo em uns gravetos secos – e escondeu a descoberta. Daí para começar a brincar (sempre escondido) foi um pulo. Acender e apagar o fogo, ver sua chama subir, mudar de cor, queimar uma folha e de repente sumir. O vermelho, o amarelo e o azul, flutuantes e camaleantes. Nesses dias, apesar do progressivo domínio técnico do fogo, Delcir continuava a dormir no frio, agarrado a um manto de lã, sonhando com as brincadeiras fátuas do dia seguinte. Bastou um cheiro de fumaça sem trovões, enquanto caçava na floresta, para que o homem primitivo descobrisse os segredos do primo. Passou então a observar Delcir de longe, anotando todos os seus procedimentos, com desenhos ilustrativos e descrições metodológicas. Produziu então o primeiro manual técnico de produção de fogo. No clã, começaram a acender fogueiras para esquentar as noites, assar a carne e espantar os animais. Também, mais tarde, para controlar a floresta que se alastrava sobre o território, fundir o ferro, construir computadores e aviões. Lamentando a banalização de sua descoberta, a pueril transformação de um elemento artístico refinado em utilitário de massa, Delcir abandonou as matérias do fogo e foi procurar outros assuntos. _ maçã Desenhávamos interfaces interativas instigantes, inovadoras, descoladas. No início para CD-ROM, depois para a internet. O cursor que desaparecia, que virava um 21