Download Pollianna Thomé

Transcript
27
e, atualmente, estas mudanças são ainda mais visíveis em função do que os cientistas têm
chamado de aquecimento global, que deixa o trabalhador do campo cada vez mais inseguro
em relação às condições climáticas no decorrer do ano. Para alguns entrevistados, nunca se
viu temporadas de cheia do rio Negro tão curtas, o que, conseqüentemente, acentua a estação
de seca. Para outros, já houve secas maiores, como observou um dos entrevistados, ao citar a
seca de 1930, quando foi possível visitar fazendas vizinhas fazendo o trajeto a cavalo pelo
leito do rio.
Esta preocupação com o movimento das águas está sempre presente nas
conversas entre pantaneiros11, pois é elemento vital na economia e na presença do homem
naquele meio. Conforme comenta Nogueira,
o pantanerio aprendeu ao longo dos séculos, a fazer suas próprias previsões,
alicerçadas na interpretação dos fenômenos naturais (...) pode-se dizer que é, ao
mesmo tempo, um botânico, um zoólogo, um astrônomo, um geógrafo acostumado
à leitura semiótica da natureza, com a qual aprendeu a conviver no dia-a-dia (2000,
p. 31).
Administrar as atividades do campo em consonância com todas as condições
físico-naturais é uma das habilidades principais que o trabalhador rural precisa ter. Tal como
diz Frémont, “as inter-relações ecológicas regulam as relações entre os homens e os meios em
que vivem, traduzem as adaptações dos grupos às possibilidades oferecidas pelo meioambiente e às dificuldades que daí resultam” (1980, p. 105).
No Pantanal, o conhecimento empírico, a sensibilidade para as coisas naturais
é ainda mais necessária, haja vista o movimento das águas. A detenção deste conhecimento é
um dos motivos que faz com que muitos homens e mulheres que prestam serviço a fazendas
situadas às margens do rio Negro, permaneçam nesta área durante longos períodos de suas
vidas.
É comum entre os trabalhadores mudar de Pantanal ao longo da vida, a fim de
trocar de emprego, de patrão, viver em outra rede de relacionamentos. Entretanto, costumam
retornar para suas regiões de origem em algum momento, seja devido às relações de
parentesco, casamento, ou à questão natural, no caso os recursos hídricos, conforme explica
um dos entrevistados:
11
Neste trabalho, entende-se como pantaneiro, aquele que assim se define por possuir “uma história em comum,
redes e regras de sociabilidade tecidas através dos anos, pela convivência com um ambiente diferenciado e pelas
formas de expressão do imaginário características de seu meio social e físico” (BANDUCCI JR., 2005, p. 15).