Download Untitled - Mackenzie

Transcript
O MITO DE LILITH E A OBRA DE NELSON RODRIGUES.
VIEIRA, M. M. W. R. B.
Toda cultura tem um padrão de quais devem ser os papéis do homem e da mulher. A cultura brasileira segue os padrões
judaicos-cristãos, onde por muitos séculos, a mulher deveria servir ao homem, tendo como hábito não demonstrar sua força
através do trabalho ou mesmo da palavra. Deveria ficar dentro de casa, sempre dócil e passiva. Ao homem caberia as
atividades desenvolvidas externamente, como trabalhar, cuidar do dinheiro, entre outros. A ação e a palavra pertenciam a
ele. Além da ação e da palavra que eram reprimidos, a sexualidade também era reprimida, e não somente pelas mulheres,
mas também pelos homens que não a viviam, em grande parte, satisfatoriamente com suas respectivas mulheres. O lar
deveria permanecer “sagrado”, e a maioria das relações sexuais visavam apenas a reprodução (filhos). Este era um dos
fatores que fazia com que ambos procurassem satisfação em ralações fora de casa. Apesar disso tudo estar mudando, não
pode-se esquecer que essas são nossas raízes e que ainda não estamos totalmente livres desses padrões.
O Mito de Lilith mostra-nos a reinvidicação de igualdade, por parte da mulher, de não admitir-se inferior ou submissa. Em
cada povo esse mito terá uma forma de ser representado de acordo com a cultura e os valores dessas sociedades. Lilith
pertence a um universo oculto, das sombras, já que é um mito de exclusão. É o que desejamos e o que ao mesmo tempo nos
transgride. Segundo Sicuteri (1985), quando entramos em contato com esses desejos, permanecemos em contato com o
medo, encontrando o inconsciente, o desconhecido, e também o que há de mais criativo da alma feminina no homem e na
mulher.
As obras de Nelson Rodrigues reencenam dramas antiquíssimos da cultura ocidental, que estão presentes nos mitos. As
famílias retratadas em sua obra tentam defender-de de uma sociedade em mudança, de um Brasil ainda colonial, patriarcal, e
de um outro Brasil que está crescendo industrialmente. Assim, suas mulheres são idealizadas santas, imaculadas, intocáveis,
como Virgem Maria. Porém, devido à forte repressão, principalmente as mulheres são levadas a atitudes ambíguas, onde por
um lado negam o desejo por sua própria sexualidade e, por outro, são levadas a experimentarem-na de maneira sombria.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BYINGTON, C. Desenvolvimento da Personalidade. São Paulo, Ática, 1987. (Série Principius, v.123)
BYINGTON, C. Estrutura da Personalidade: Persona e Sombra. São Paulo, Ática, 1988. (Série Principius, v.135)
CHARLIER, R. C. O retorno do trágico em Nelson Rodrigues: dionisismo e alteridade. São Paulo, 1999. Tese
(Doutorado), Psicologia Clínica, Pontífica Universidade Católica de São Paulo.
CHAUÍ, M. Repressão Sexual: Essa Nossa (Des)Conhecida. 12ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1991.
HARDING, M. E.Os Mistérios da Mulher. São Paulo, Edições Paulinas, 1970. (Col. Amor e Psiquê)
MOTT, L. O Sexo Proibido: Virgens, Gays e Escravos nas Garras da Inquisição. Campinas, Papirus, 1988.
PAIVA, V. Evas, Marias, Liliths, Amélias, Diadorins, Rebordosas... Caminhos Singulares da Identidade Feminina no
Patriarcado em Crise. São Paulo, 1986. 286p. Tese (Mestrado) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.
RODRIGUES, N. O melhor do romance, contos e crônicas. Seleção e apresentação Ruy Castro. São Paulo, Cia. Das
Letras, 1993.
RODRIGUES, N. Teatro completo. Organização de Sábato Magaldi. Rio de Janeiro, Nova Fronteira,1981. (Vol.1, 2, 3 e 4)
RODRIGUES, N. Asfalto Selvagem – Engraçadinha, seus amores, seus pecados. São Paulo, Cia. Das Letras, 1994.
ULSON, G. O Método Junguiano. São Paulo, Ática, 1988. (Série Principius, v. 131).
SICUTERI, R. Lilith: a Lua Negra. Trad. Norma Telles e J. Adholpho S. Gordo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1985.
(Coleção Psiquê, v. 2)