Download TESE EM PDF - Ceart

Transcript
177
Ela era vista como uma construção cultural apolínea e
repressiva, enquanto a voz foi vista como uma ‘alternativa
original’126” (PARDO, 2003, p. 43, trad. nossa). Artaud, na
década de 1940 já havia escrito:
Não se trata de suprimir a palavra do teatro,
mas de fazê-la mudar sua destinação e,
sobretudo de reduzir seu lugar, de considerá-la
como algo que não um meio de conduzir
caracteres humanos a seus fins exteriores, uma
vez que, no teatro, a questão é sempre o modo
pelo qual os sentimentos e as paixões se opõem
uns aos outros e de homem para homem, na
vida. (ARTAUD, 1999, p. 80).
Quase vinte anos depois dos escritos de Artaud, uma nova
geração vai dar novos contornos a esse ideal; a voz “supera” a
palavra por motivos estéticos, políticos e ideológicos – são
desejos de metafísica vocal, de um encontro diferenciado com
a voz. Uma necessidade de quebra, ruptura, marca essa
geração, por isso seus ideais serão expostos com tanta ênfase,
com apelos de abalo e violência. A ruptura cria uma
necessidade de negação do passado da própria cultura, um
intenso desejo de diferenciação, de não condescendência.
Pardo complementa:
vozes “Evocadoras-de-Dioníso” a mítica ânsia
por identidades interiorizadas e unitárias, pelo
retorno a um eu preservado em memórias
primordiais, de uma integridade enraizada e
encarnada. Nisso vemos as utopias de
individualização sugeridas por muitos dos
adjetivos dados à voz hoje: a “voz livre”, a voz
126
“The revolutionary 1960s in many respects branded language itself as the enemy.
It was seen as an Apollonian construct cultural repression, while the voice was seen
as a ‘primal’ alternative” (PARDO, 2003, p. 43).