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314 que individua o limite e o transgride, pretendendo dizer o indizível, ou seja, de significar apenas o significante <<vazio>> e <<puro>>246 (BOLOGNA, 1992, p. 38, trad. nossa). Sobre outra modalidade de contato entre a voz e a escuta, Bologna cita as formas de transe e possessão através da música. O escritor descreve essa escuta das vozes que provoca o arrebatamento, a perda de si na indistinção entre corpo e mundo no procedimento do ritual (o que me faz lembrar a ideia de erotismo como perda de si, a dissolução de Bataille): Voz que preenche o corpo, o coração, as orelhas, a língua, fazendo-as vibrar como os assobios e os instrumentos que o xamã é preenchido pelo espírito apenas entrado nele pelo ouvido sob forma de sibilo, e que o faz tremer como uma árvore ao vento, chacoalhando-o, conduzindo-o ao colapso, à histeria, à explosão interna, como derramamento de sangue. É uma voz ambígua; a duplicidade, antes, a indistinção são próprias a ela247 (BOLOGNA, 1992, p. 36, trad. nossa). Bem longe esteticamente desse universo descrito de possessão e do transe, mas surpreendentemente análoga, está a ideia do canto como substância movente dos afetos em uma dimensão 246 “Solo nell’abolirsi come parola per restituirsi al silenzio del linguaggio sovrannaturale o al grido inarticolabile dell’animalità, la voce indica la barriera della propria origine: esperienza di Dio (teologia), dell’Amore (erotismo), del Nulla (psicosi) sono, nel pensiero europeo, da sempre coniugate in un stesso gesto, che individua il limite e lo trasgredisce, pretendendo di dire l’indicibile, ossia di significare il solo significante <<vuoto>> e <<puro>>” (BOLOGNA, 1992, p. 38). 247 “Voce che riempie il corpo, il cuore, le orecchie, la língua, facendoli vibrare proprio come i fischietti e gli strumenti che lo sciamano riempie dello spirito appena entrato in lui dall’orecchio sotto forma di sibilo, e che lo fa tremare come um albero al vento, squassandolo, conducendo al collasso, all’isteria, all’esplosione interna, com fuoriuscita di sangue. È una voce ambigua; la doppieza, anzi l’indistinzione le sono proprie” (BOLOGNA, 1992, p. 36).