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que individua o limite e o transgride,
pretendendo dizer o indizível, ou seja, de
significar apenas o significante <<vazio>> e
<<puro>>246 (BOLOGNA, 1992, p. 38, trad.
nossa).
Sobre outra modalidade de contato entre a voz e a escuta,
Bologna cita as formas de transe e possessão através da
música. O escritor descreve essa escuta das vozes que provoca
o arrebatamento, a perda de si na indistinção entre corpo e
mundo no procedimento do ritual (o que me faz lembrar a ideia
de erotismo como perda de si, a dissolução de Bataille):
Voz que preenche o corpo, o coração, as
orelhas, a língua, fazendo-as vibrar como os
assobios e os instrumentos que o xamã é
preenchido pelo espírito apenas entrado nele
pelo ouvido sob forma de sibilo, e que o faz
tremer como uma árvore ao vento,
chacoalhando-o, conduzindo-o ao colapso, à
histeria,
à
explosão
interna,
como
derramamento de sangue. É uma voz ambígua;
a duplicidade, antes, a indistinção são próprias
a ela247 (BOLOGNA, 1992, p. 36, trad. nossa).
Bem longe esteticamente desse universo descrito de possessão
e do transe, mas surpreendentemente análoga, está a ideia do
canto como substância movente dos afetos em uma dimensão
246
“Solo nell’abolirsi come parola per restituirsi al silenzio del linguaggio
sovrannaturale o al grido inarticolabile dell’animalità, la voce indica la barriera della
propria origine: esperienza di Dio (teologia), dell’Amore (erotismo), del Nulla
(psicosi) sono, nel pensiero europeo, da sempre coniugate in un stesso gesto, che
individua il limite e lo trasgredisce, pretendendo di dire l’indicibile, ossia di
significare il solo significante <<vuoto>> e <<puro>>” (BOLOGNA, 1992, p. 38).
247
“Voce che riempie il corpo, il cuore, le orecchie, la língua, facendoli vibrare
proprio come i fischietti e gli strumenti che lo sciamano riempie dello spirito appena
entrato in lui dall’orecchio sotto forma di sibilo, e che lo fa tremare come um albero
al vento, squassandolo, conducendo al collasso, all’isteria, all’esplosione interna,
com fuoriuscita di sangue. È una voce ambigua; la doppieza, anzi l’indistinzione le
sono proprie” (BOLOGNA, 1992, p. 36).