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básicos no relacionamento entre os envolvidos com a assistência ao pobre: a estima e o temor.
Lázaro era um ser estimado, porque representava a possibilidade do exercício da caridade
cristã e do cumprimento da doutrina evangélica do amor ao próximo. Da mesma forma, ele
era um ser temido, uma vez que, ao não satisfazê-lo em suas necessidades, os grupos sociais
poderiam suscitar uma punição da parte da divindade judaico-cristã, pela desobediência em
não praticar a caridade intrínseca à religião cristã.
A “lazarização” do pobre na assistência social feita pela Igreja se transforma em uma
característica ‘naturalizante’ do estado de pobreza do sujeito, e na utilização do estado de
pobreza para os interesses de ordem moral e espiritual do ‘fiel cristão’46. Assim sendo, a
prática da caridade através da esmola ou do trabalho direto com esta população significa a
possibilidade de redenção dos erros humanos – pecados – para com a Divindade cristã, assim
como a inserção do sujeito no grupo que possui a “beneficência” como característica principal
de pertença grupal. O pobre se transforma em ‘espaço litúrgico’47 da religião cristã, da mesma
forma que redefine a função social do sujeito - como benfeitor ou não - na ordem social.
As reminiscências da institucionalização e do relacionamento na assistência social
prestada pela Igreja podem ser encontradas na constituição das suas instituições caritativas no
Ocidente. No Brasil, a ação da Igreja Católica na assistência aos pobres está presente desde o
período colonial – como já foi citado anteriormente – estendendo sua atuação e consolidando
a sua prática no atendimento das necessidades específicas da cultura brasileira ao longo da
história.
Autores como Gohn (1997) e Oliveira e Haddad (2001) reconhecem, a partir do século
XX, uma ação social mais incisiva e determinante das instituições católicas no panorama
sócio-econômico brasileiro e sua mediação como organização pública não estatal,
potencializadora de ações concretas junto às camadas populares.
(Exemplo: Livros do Deuteronômio 15, 1-11; Isaías 58; Ezequiel 16, 49; Amós 6, 4-6) (cf. SCHÖKEL, Luís
Alonso. Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2002. p. 2511-2512)
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Segundo o Cânon 204 §1 do Direito Canônico da Igreja Católica apostólica Romana de 1983: “Fiéis são os
que, incorporados a Cristo pelo batismo, foram constituídos como povo de Deus e assim, feitos participantes, a
seu modo, do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, são chamados a exercer, segunda a condição
própria de cada um, a missão que Deus confiou para Igreja cumprir no mundo.”
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Liturgia é originado do grego ‘leotourgos, litourgia’ que significa obra, ação ou iniciativa assumida em favor
do povo, do grupo. Na sagrada escritura, a palavra liturgia significa o serviço religioso prestado pelos Levitas e
Sacerdotes (grupos responsáveis pelo culto divino) no templo de Jerusalém. Na Igreja Católica, a liturgia se
transforma em uma ação (celebração) sagrada da Igreja, na qual os fiéis glorificam a Deus e são santificados pela
divindade, em Jesus Cristo, através de palavras e sinais sensíveis e visíveis ao mundo. (cf. BUYST, Ione. Como
estudar liturgia. 4ª ed. São Paulo: Paulus, 2000.)