Download Trabalho Completo

Transcript
143
Considerações finais
Analisar o uso metafórico dos animais na literatura contemporânea, sob o ponto de
vista antiespecista, levou-nos a uma indagação fundamental: perceber as representações de
animais ou como metáforas de fato ou como representações diretas. Um olhar estritamente
antropocêntrico tende a perceber qualquer representação de animal como metafórica num
sentido ortodoxo. Visto que a doxa especista prescreve a crença na ausência de subjetividade
dos animais, essas representações estariam fadadas a jamais ultrapassar uma função analógica
como ferramenta narrativa, e como vimos, no mais das vezes baseadas na função simbólica
das figuras animais. Num paradigma de reificação dos animais não humanos, são metáforas
que animizam.
A personagem de um cão que aprecia música, por exemplo, jamais poderia ser
entendida como a representação direta de um cão que aprecia música, e sim como uma
projeção construída pela mente do personagem humano que, degradado, deprimido,
derrotado, busca um eco de “humanidade” onde não há nenhum. A personagem de uma
cadela que sofre com o abandono serve apenas como metáfora da situação de isolamento e
desolação do protagonista, visto que os conceitos de sofrimento emocional e abandono seriam
inaplicáveis a animais não humanos.
Não poucas vezes no decorrer deste estudo nos vimos constrangidos pela vergonha
de ter vergonha de que nos fala Derrida; a vergonha de, diante do olhar dos outros humanos,
admitir que sentimos o olhar do animal. E este foi o peso da doxa especista. O temor de
inadvertidamente ingressar no imperdoável domínio do piegas, do ingênuo e mesmo do
ridículo estava presente. E sempre que esse sentimento principiava por minar qualquer certeza
sobre a qual pudesse se construir este trabalho, fomos buscar socorro em Derrida, quando
afirma sobre o assujeitamento do animal não humano pelo homem:
Ninguém mais pode negar seriamente a negação. Ninguém mais pode negar
seriamente e por muito tempo que os homens fazem de tudo o que podem para
dissimular ou para se dissimular essa crueldade, para organizar em escala mundial o
esquecimento ou o desconhecimento dessa violência que alguns poderiam comparar
aos piores genocídios... (2011, p. 52)276
276
A negação. Em The lives of animals, de Coetzee, ela é retratada pelo constrangimento do filho da escritora
Elizabeth Costelo quando a mãe, palestrando na universidade onde ele leciona, escolhe o tema da alteridade
animal. Ele percebe que a professora encarregada do protocolo de apresentação do encontro “makes no
attempt to link his mother´s novels to the subject of the lecture”. (1999, p. 17) É curioso notar que a
apresentação da edição brasileira de O animal que logo sou (2002) igualmente não faz nenhuma menção à
questão dos direitos animais ou seus desdobramentos nas problemáticas concretas contemporâneas e situa o
texto na esfera da investigação filosófica da “mito-poética” da noção de animal. Exatamente o tipo de
abordagem redutora, do ponto de vista antiespecista, que Derrida denuncia na obra.