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88 descreve utilizando a segunda metáfora animal do texto: “His needs turn out to be quite light, after all, light and fleeting, like those of a butterfly.”70(COETZEE, 1999, p.5) A frugalidade caracteriza também outros domínios de sua vida interior. Autor de três livros sobre cultura clássica, apaixonado por Wordsworth e Byron – sobre o qual sonha em compor uma ópera –, ele lecionava línguas modernas numa certa Cape Technical University, que sofreu a “great rationalization”.71(1999, p. 3) Como resultado, ministra naquele momento disciplinas denominadas “communications”, e recebe a especial concessão de montar anualmente um curso de sua escolha, onde percebe-se, pode voltar ao seu berço clássico: naquele ano, escolheu como tema os poetas românticos. O narrador onisciente nos revela que Lurie não tem respeito pelas outras matérias que ensina, razão pela qual é desprezado pelos alunos, e também que ele has never been much of a teacher; in the transformed and, to his mind, emasculated institution of learning he is more out of place than ever. But then, só are other of his colleagues from the old days, burdened with upbringings inappropriate to the tasks they are set to perform; clerks in a post-religious age. 72 (COETZEE, 1999, p. 4) Podemos perceber a representação do contexto da África do Sul pós-apartheid, reestruturando-se em todas as áreas – econômica, cultural, educacional – numa nova ordem não eurocêntrica, e a sensação de inadequação de Lurie diante dessa nova ordem. Por exemplo, “great rationalization” refere-se ao processo, iniciado a partir de 1994, de desmantelamento do sistema educacional característico do período da segregação racial – um dos principais aparelhos de manutenção do regime era o apartheid educacional. Professores das escolas caracterizadas pela hegemonia branca passaram por processos de reciclagem, foram realocados para atender às necessidades de distribuição mais equilibrada em áreas carentes ou estimulados a aderir a programas de demissões voluntárias. (CHUDNOVSKY, [s.d.], p. 26) Outra metáfora animal aparece quando nesse Lurie blasé e civilizado, que se surpreende em quão bem atendeu ao chamado dos seus instintos, surge um traço comum a vários animais: o comportamento predatório. Numa tarde qualquer, andando pela cidade, Lurie avista Soraya fazendo compras na companhia de duas crianças, que adivinha serem 70 71 72 “Suas necessidades acabaram se revelando bem leves, afinal, leves e fugazes, como as de uma borboleta.” (COETZEE, 2011, p.12) “grande reengenharia” (COETZEE, 2011, p.10) “...nunca foi um grande professor; nessa instituição de ensino transformada e, em sua opinião, emasculada, ele está mais deslocado do que nunca. Mas seus colegas de antigamente também estão na mesma, curvados pela formação inadequada para as tarefas que se meteram a cumprir; sacerdotes em uma era pós-religiosa.” (COETZEE, 2011, p.11)