Download Haruki Murakami - 1Q84

Transcript
Adachi,Tengo lembrou-se da sala da escola primária e de Aomame. O toque era
diferente.Mas,aomesmotempo,haviaalgoemcomum.
—Achoqueestoubêbada—disseKumiAdachi.
—Achamesmo?
—Acho.
Tengoolhouparaorostodeladeperfil.—Nãopareceestarbêbada.
—Nãoaparento.Édaminhanatureza.Masachoqueestoubemalta.
—Nãoéparamenos.Vocêbebeumuito.
—Realmente,euexagerei.Fazmuitotempoquenãobebiatantoassim.
—Àsvezesébomtermomentosdedescontração—disseTengo,repetindoas
palavrasdaenfermeiraTamura.
— Tem razão — disse Kumi Adachi, concordando enfaticamente com a
cabeça.—Devezemquando,aspessoasprecisamsedescontrair:comeralgogostoso
atésesaciar,beber,cantaremvozalta,jogarconversafora...Vocêtambémcostuma
fazer isso? Você consegue se soltar e deixar o cérebro espairecer? É que você parece
sempretãocalmoecomedido.
Tengo parou para re etir sobre isso. Será que ultimamente havia feito algo
parasedistrair?Nãoconseguiaselembrar.E,senãoconseguiaselembrar,eraporque
não tinha feito nada. O próprio conceito dese soltar e deixar o cérebro espairecer
pareciainexistenteparaele.
—Achoquenãomuito—admitiuTengo.
—Aspessoassãodiferentesumasdasoutras.
—Hádiversasmaneirasdepensaredesentir.
— Assim como há diversas maneiras de se embriagar — disse a enfermeira,
dandorisadinhas.—Masachoquevocêtambémprecisaespairecer,Tengo.
—Achoquevocêestácerta—disseTengo.
Osdoiscontinuaramacaminhadanoturnaduranteumtempo,demãosdadas
e em silêncio.Tengo estava um pouco incomodado com a mudança de como ela
falava com ele. Quando ela usava o traje de enfermeira, sua linguagem era
evidentementepolidaeformal.Mas,comroupascomuns,epossivelmenteporestar
alcoolizada,passaraadizertudooquepensava,semtravasnalíngua.Esseseujeito
informaldefalarerafamiliarparaTengo.Alguémfalavadessemesmojeito.Alguém
queeleencontrarahaviapoucotempo.
—Tengo,poracasovocêjáexperimentouhaxixe?
—Haxixe?
—Aresinadocânhamo.
Tengorespiroufundooarnoturnoemseuspulmõeseexpirou.—Não,ainda
não.
— Pois então, você não quer dar uma experimentadinha? — indagou Kumi