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Estamos sempre a nos perguntar: o que é mito? Uma constância que não sai de nossas cabeças, apesar da complexidade da resposta. Mas, como já frisamos, precisamos do seu entendimento, ou pelo menos de nos aproximar dele, de forma a permitir a análise no campo da pesquisa. Então, veremos como Buzzi: O mito consiste na ingente tarefa de vivermos os mÿthoi, isto é, as palavras que dizem o concreto. Todos estamos imediatamente na sua experiência, na sua aliança de sua amplitude, ainda quando recorremos à ciência para mensurá-lo (BUZZI, 1972, p. 87). É nas narrativas míticas que se firmam os elos dos homens entre si e com seu meio ambiente e, conforme Buzzi (l972), um povo sem mito é um povo que perdeu o senso do concreto, “desraizado que flutua no aéreo sem terra e sem sangue. Sua história é uma dúvida”. Este será o caso da formação docente em artes visuais? Criada dentro de um ambiente desfavorável ao mito, numa instituição de cunho tecnicista, não consegue ter o senso do “concreto”, por restringir-se ao mercado. As especializações limitam a visão educacional como funcionalista e se perdem nas suas especificidades, concebendo o mundo mecanicamente, e, por consequência, subtrai os sentimentos humanísticos que deveriam ser priorizados na educação contemporânea. Na convivência com essas narrativas, nós as naturalizamos e, de certa forma, passamos a agir inconscientemente com elas; sem percebermos, somos míticos, afinal de contas, é praticamente impossível um ser humano totalmente autômato; o mito, como bem disse Chauí (1995), pertence ao lado direito do cérebro, sendo este regido pela emoção, intuição; já a ciência, pertence ao hemisfério esquerdo, que é o lado lógico. Isso nos impulsiona a compreender o mito, a mostrar sua eficácia, para que não nos tornemos seres robotizados; quando perdermos o foco da ciência, encontramo-nos cada vez mais com o mito, para nos nortear, dar sentido à vida e, na perspectiva da pesquisa, o mito também se traduz nos desejos de ser professor ou artista. O último possui a peculiaridade de ser mais independente das instituições formadoras, portanto, menos sujeito a racionalidade científica. O mito independe de nossa vontade individual, ele age num estado coletivo de coisas, sua ação não pertence a um único sujeito. Ele é fugidio aos esquemas ideológicos e, diferentemente da ciência, não pode ser apropriado num espaço privado, ele é público por natureza. Uma de suas funções, contradizendo sua falta de lógica, é organizar a vida social na sua intersubjetividade, atuando no meio social como um camaleão, adaptando sua camuflagem para o seu difícil apresar e para manter sua livre ação, principalmente em nossa contemporaneidade, quando este habitat para ele é tanto inóspito quanto acolhedor. 68