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quadro de adaptação e interpretação do objecto técnico às suas especificidades,
interesses e representações (Akrich e Latour, 1992: 259).
Numa interpretação mais elaborada Thierry Bardini sugere a substituição do termo
descrição por “affordance”, utilizada pelo psicólogo ecologista J. Gibson nos anos 70,
para “reintroduzir a materialidade dos objectos na análise” (1996: 128; Gibson; 1977:
67-82). Para Bardini o termo “affordance” permite conceber os objectos técnicos nos
termos das suas características físicas e materiais na realização da experiência
comunicacional, promovendo a superação da dimensão simbólica das utilizações e a
inversão do modelo literário/semiótico texto-leitor. A análise de Bardini permite pois
apreender os objectos como algo mais do que textos a serem lidos, ou máquinas prontas
a serem utilizadas: além da dimensão simbólica, a relação que se estabelece com os
objectos técnicos é acima de tudo concreta e releva da percepção: um objecto que está
diante de nós, com as suas características, com um simbolismo próprio, de determinada
côr e forma e alvo de apreciação estética.
2.1.2.1 O imaginário das tecnologias da comunicação segundo Scardigli.
Mas para além da reflexão sobre a técnica, comentadores como Victor Scardigli
registam perspectivas da problematização da técnica distinguindo posturas diferentes.
Segundo Scardigli, durante os anos 70 registou-se a “tecnicização progressiva dos
domínios de actividade industrial e social”, compatível com uma “tecno-lógica da
mudança social” (Scardigli, 1994: 309) aliás em aparente conformidade com o processo
de tecnicização da relação de comunicação como salientava Josiane Jouët (1993a: 102104).
Todavia as investigações das últimas décadas do século XX incidiram pelo que Alain
Touraine (1992) chamou “redescoberta do sujeito”, consentâneo com o fortalecimento
da perspectiva do sujeito, o que alimentou a partir igualmente de toda uma literatura
sobre o predomínio do sujeito e de uma reflexão centrada sobre a técnica, para uma
reflexão centrada nas utilizações.
Na análise da sucessão das inovações técnicas, Scardigli propõe igualmente uma
reflexão centrada sobre as utilizações, embora não deixe de reconhecer a partir da
acumulação de inovações técnicas e científicas que marca “uma nova etapa na
transformação cultural das sociedades ocidentais”. Depois do aparecimento do objecto
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