Download File

Transcript
de media reproduzem os gostos e valores que integram o seu processo de socialização,
em reflexo das diferentes formas de “capital social” para retomarmos a expressão de
Bourdieu (1984).
O que estes autores procuraram colocar em evidência é que a diferenciação nas
condições e padrões de utilização não está relacionada apenas com o acesso, mas com
contextos de natureza política, económica, institucional, cultural e linguística, que
moldam o impacto e repercussão das tecnologias da informação na vida de cada um. Por
conseguinte, esta desigualdade não é de natureza digital, mas social. A ênfase no
aspecto linguístico foi colocada à vista particularmente por Chen e Wellman (2004a: 24)
ao salientarem que de acordo com o World Economic Forum (2002) metade dos
utilizadores de internet são de origem anglo-saxónica e que cerca de três quartos dos
sítios de internet serem escritos em inglês. Constatação semelhante foi realizada em
Portugal no quadro do estudo sobre a sociedade em rede realizada pelo CIES/ISCTE no
qual se afirma representarem os sítios públicos em inglês cerca de três quartos do total:
72% segundo o OCLC, Online Computer Library Center (Cardoso, Costa, Conceição e
Gomes, 2005: 111).
Acresce que a noção de fosso digital remete para ideia que a mesma pode ser
eliminada ou reduzida através de políticas públicas destinadas a ligar a sociedade,
embora tal ideia não esteja demonstrada, o que nos remete para a ideia mais popular do
determinismo tecnológico, ou seja de um conjunto de concepções segundo as quais se
enquadra verdadeiramente os esforços e políticas públicas destinadas a ligar a
sociedade, assumindo a ideia que a presença da tecnologia exerce um efeito
determinante no comportamento e evolução social (Innis, 1951; McLuhan, 1962, 1964;
Postman, 1993).
Do ponto de vista histórico, a pressuposição que a tecnologia exerce efeitos sobre a
sociedade foi inicialmente formulada pelo sociólogo norte-americano Thorsten Veblen
(1899), o qual mostrou na sua influente obra Theory of the Leisure Class a forma como
a tecnologia desencadeia crises que provocam modificações das instituições e dos
valores sociais, tendo sido o fundador do movimento americano da tecnocracia (Jonas,
1991: 421-22). Depois da sua formulação na passagem do século XIX, numerosos
sociólogos a ela se referiram variando as suas concepções entre os que reflectindo sobre
a tecnologia a consideravam condição suficiente para propiciar a mudança e
secundarizando os factores humanos e os processos sociais e os que partilham de uma
visão mitigada e que consideram que apenas pode facilitar o processo de mudança.
138