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46 PERFIL DO MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO E DOS TRABALHADORES NA CONSTRUÇÃO CIVIL bém na forma de utilização da força de trabalho, as condições e relações de trabalho, em que as comissões de fábrica têm pouca influência. Seria difícil uma realidade diferente, dado que, primeiro, a própria relação desigual entre capital e trabalho impõe desníveis instransponíveis na balança; segundo, a estrutura deste mercado foi fundamentada a partir da transição do trabalho escravo para o assalariado, em que se procurava substituir a compra de um ativo pela remuneração por tempo de trabalho; e, terceiro, o enfrentamento político, apesar de permitir a existência de avanços, no caso brasileiro, recorrentemente demonstra o quão persistente é o retrocesso.4 Desde a transição do trabalho escravo para o chamado trabalho livre, a formação da estrutura do mercado de trabalho brasileiro esteve amplamente amparada em questões econômicas e políticas. Neste processo, o Estado desempenhou papel fundamental, seja organizando a transição de forma a não prejudicar o rendimento do capital adiantado, como para reduzir o impacto da desvalorização do preço dos escravos, ou disciplinando a força de trabalho,5 seja introduzindo a “importação” de trabalhadores, como forma de efetivar a formação do mercado de trabalho e de garantir um exército de reserva,6 ou elaborando as leis sem participação efetiva dos trabalhadores, como na criação da CLT.7 Dos anos 1930 à década de oitenta, aconteceu, juntamente com a industrialização da economia brasileira, o processo de instrumentalização capitalista do mercado de trabalho brasileiro.8 A formatação de um conjunto 4 Como explicitam vários estudiosos brasileiros, o que hoje é considerado como mercado de trabalho nacional nasceu envolvido “pelo contínuo excedente de oferta, alta instabilidade do emprego e flexibilidade dos salários, ausência de legislação trabalhista e uso indiscriminado de mulheres e crianças perfazendo extensas jornadas” (Barbosa, 2003, p. 222). 5 A criação da Lei de Terras foi instrumento rico para exemplificar o papel do estado brasileiro na formação do mercado de trabalho, além de várias outras mudanças na estrutura legal, como aquelas criadas para definir e delimitar a desescravização. As relações entre meeiro e dono da terra, ou as de parceria, ou de colonato, são exemplo de como o patriarcalismo ajudou a construir soluções que propiciaram a manutenção do autoritarismo. Para maiores detalhes, ver, por exemplo, Barbosa (2003). 6 Como através do financiamento da imigração, ou através de políticas de manutenção de baixos rendimentos oriundos da atividade laboral. Mesmo com o fim dos subsídios governamentais, a imigração não arrefeceu significativamente durante longo período, até os anos 1930. 7 Antes da Consolidação das Leis Trabalhistas, a opção econômica e política do estado e das elites brasileiras se dava pelo contrato individualizado, “acordado” entre as partes. 8 No período, houve mudança significativa de vários indicadores, como a queda do número de pessoas desempregadas, de trabalhadores por conta própria e daqueles sem remuneração, que passou de “55,7% da PEA, em 1940, para 34,1%, em 1980. Para uma taxa média anual de expansão da população economicamente ativa de 2,6% entre 1940 e 1980, o emprego assalariado com registro aumento 6,2%. No mesmo período, o emprego assalariado total cresceu a uma taxa média anual de 3,6%, e o emprego sem registro a uma taxa de 0,6%, enquanto o desemprego variou 0,5%, as ocupações por conta própria 1,8%, e as ocupações sem remuneração 0,6% [... e] de cada dez ocupações geradas, quase oito eram assalariadas, sendo sete com registro e uma sem [... e] de cada 100 pessoas que ingressavam no mercado de trabalho, 99 conseguiam algum posto” (Pochmann, 2008, p. 62).